Ideação
POLÍTICAS PÚBLICAS PARA MELHOR
QUALIDADE DE VIDA.

Por que os países – e pessoas – devem poupar? Seis caminhos para um futuro sustentável

ideia | 26 Abril 2017

Eduardo Cavallo e Tomas Serebrisky*

As respostas a esta pergunta geralmente seguem a mesma linha: para conseguir enfrentar momentos de crise, para o tempo das vacas magras, para emergências. É claro que poupar é fundamental para passar por períodos de recessão, mas, e se invertermos essa lógica e passarmos a poupar para crescer em tempos de bonança? Essa perspectiva mostra que poupar ainda é o melhor caminho para investir mais e garantir a produtividade, conforto e tranquilidade para uma vida plena, até a velhice.

A mesma lógica que se aplica a pessoas também deve ser adotada a partir do ponto de vista dos países. O estudo do BID,  Poupança para o Desenvolvimento, mostra que a América Latina e o Caribe são a segunda região do mundo que menos poupa, ficando atrás apenas da África Subsaariana. Os países poupam menos de 20% do PIB, quase metade do que os países que possuem altos níveis de crescimento, como os do leste asiático.

Estes índices são insuficientes para garantir investimentos fundamentais para o desenvolvimento. O livro aponta a necessidade de práticas e ações que devem ser adotadas por famílias, empresas e governos para promover o aumento e a qualidade da poupança e reverter o cenário que se projeta a médio e longo prazo, de baixo crescimento, baixas taxas de investimento e de necessidade de atender à população que está envelhecendo.

Listamos abaixo seis caminhos apontados pelo estudo para romper com esse ciclo e promover a poupança para o futuro de forma sustentável, com ações que combinam políticas públicas que estimulam o crescimento direto da poupança e aumento da produtividade:

Estimular um ambiente favorável para a poupança

Incentivar o crescimento da poupança nos países da região por meio de melhores políticas fiscais, alíquotas de impostos compatíveis com as tendências internacionais e que possam impulsionar a formalização e rever preferências fiscais que favorecem atualmente os investimentos voltados para famílias de alta renda;

Gastar de forma mais eficiente

Criar e implementar reformas para melhorar a eficiência do gasto público, evitando a utilização de medidas de austeridade como corte de gastos essenciais e aumento de impostos que impactam diretamente nas famílias.

Promover e facilitar o desenvolvimento de sistemas financeiros

Corrigir problemas que desestimulem o uso dos sistemas financeiros de poupança e limitam a disponibilidade de crédito para empresas produtivas, como a falta de informações sobre potenciais mutuários e o alto custo de execução de contratos financeiros.

Corrigir sistemas previdenciários

A maioria dos sistemas previdenciários da região enfrenta desafios estruturais associados à informalidade e baixas taxas de contribuição. Ao mesmo tempo, não há recursos disponíveis para atender a política de benefícios assumida com os contribuintes. É necessário ajustar parâmetros como idade de aposentadoria, nível de benefícios e anos de contribuição a fim de evitar sistemas descapitalizados e/ou insustentáveis no futuro.

Desenvolver a cultura da poupança

Altos custos financeiros, dificuldades de acesso aos sistemas, falta de confiança e de conhecimento e tendências comportamentais estão entre os fatores que ainda impedem as pessoas de poupar e de criar o hábito da poupança. É necessário criar e promover instrumentos que facilitem este acesso e criar uma cultura de poupança através da educação financeira direcionada a crianças e jovens, fase em que é comprovadamente mais eficaz a introdução de hábitos positivos;

Impulsionar a produtividade

O crescimento econômico associado ao aumento da poupança só ocorre quando existe um crescimento agregado à produtividade, ou seja, a poupança deve ser canalizada para oportunidades de investimento produtivo garantindo que recursos decorrentes da poupança sejam melhor alocados.

Poupar mais e melhor significa repensar políticas públicas, especialmente na área da seguridade social; aumentar a eficiência do gasto público e atribuir mais importância ao investimento com relação à despesa corrente na estrutura do gasto público.

Ou seja, a poupança deixa de ser apenas um mecanismo de segurança para se tornar um instrumento que viabiliza o crescimento e oferece estabilidade para a região latino-americana, reduzindo a busca por poupanças externas e promovendo uma melhor saúde financeira para os países. É importante criar um ambiente em que todos compartilhem da visão de que mais poupança e melhor uso dos recursos podem ser o verdadeiro caminho para o desenvolvimento estável – e sustentável.

 

*Eduardo Cavallo é economista líder do Departamento de Pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento em Washington, DC.

*Tomás Serebrisky é assessor econômico principal no Banco Interamericano de Desenvolvimento em Washington, DC.

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