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Para onde vai o setor hidroelétrico latino-americano? (…e 5 aspectos chave para seu futuro)

ideia | 19 Julho 2018

Arturo Alarcon*

A hidroeletricidade é energia renovável, e está baseada em uma tecnologia madura, confiável e de baixo custo de produção. As centrais hidroelétricas, além de fornecerem energia elétrica, podem oferecer outros serviços, como regulação de parâmetros, controle de inundações, reservatórios de água doce para seu uso, e proveem geração constante (de base) que facilita a instalação de energia variável, como a eólica e a solar. Mesmo assim, e apesar destes benefícios, as centrais hidroelétricas não estão livres de controvérsia. Os potenciais impactos ambientais e sociais, além dos riscos associados à construção destes projetos, lançam uma sombra de dúvida sobre esta tecnologia. Recentemente, algumas discussões e publicações sobre “energia renovável” esqueceram diretamente de mencionar a hidroeletricidade. Então vale a pena nos perguntar: para onde vai o setor hidroelétrico latino-americano?

É preciso lembrar que, independentemente de controvérsias, o desenvolvimento de muitos países da América Latina e Caribe (ALC) está diretamente vinculado às hidroelétricas. São vários os sistemas elétricos que começaram seu desenvolvimento com a instalação de centrais hidroelétricas, ao final do século XIX e início do século XX, construindo redes ao redor delas. Estes sistemas elétricos (que agora chamaríamos de “micro-grids”) deram origem à criação de várias empresas de eletricidade, que continuam sendo atores-chave no desenvolvimento econômico de seus países. Outro aspecto histórico importante é que os projetos hidroelétricos binacionais (Itaipu, Yacyreta e Salto Grande) são, até o momento, os principais investimentos de integração em infraestrutura que a região possui.

A instalação de projetos hidroelétricos na ALC atingiu seu pico nas décadas de 70 e 80, quando a capacidade instalada cresceu cinco vezes, com a entrada em operação de mais de 70 GW de usinas hidroelétricas (média de 7 GW por ano). Durante a década de 90 e a década de 2000, o desenvolvimento continuou, com a instalação de mais 60 GW de usinas elétricas na região (a um ritmo de 3 GW/ano em média). Dados de 2010-2015 mostram que o desenvolvimento hidroelétrico não parou, e que ainda são instalados entre 2 e 3 GW em média por ano na região. Além disso, os dados de 2017 mostram que mais de 4 GW foram instalados. Então, parece que a hidroeletricidade tem um presente saudável. Mas e o futuro dela?

De acordo com as estimativas disponíveis, ainda há um vasto potencial hidroelétrico a ser explorado e aproveitado. De acordo com dados da OLADE, apenas 25% do potencial hidroelétrico foi explorado, e ainda há mais de 500 GW disponíveis, principalmente no Brasil e nos países andinos. Esses dados e os custos de projetos recentes mostram que os empreendimentos hidroelétricos de baixo custo ainda são possíveis. Confirmando isso, as várias projeções disponíveis (da IEA, WEC e do BID) apontam que a geração hidroelétrica continuará a ser essencial para atender a demanda de eletricidade na ALC, e que, dependendo do cenário projetado, as usinas hidroelétricas serão instaladas a um ritmo semelhante ao experimentado nas últimas décadas (2 GW/ano), ou mesmo a um ritmo superior (até 5 GW/ano).

Evidentemente, um fator que impulsionará esse desenvolvimento hidroelétrico será a necessidade de cumprir as metas estabelecidas na COP 21, em relação à redução da geração de fósseis e suas emissões associadas. Dada a sua flexibilidade operacional e a possibilidade de armazenamento de energia, a hidroeletricidade permite o desenvolvimento e complementa a instalação de energias renováveis ​​não convencionais (eólica e solar). Outro fator que poderia impulsionar o desenvolvimento hidroelétrico é a integração regional, uma vez que permitiria o desenvolvimento de projetos para aproveitar o potencial hidroelétrico em países cuja demanda é pequena, como Bolívia e Guiana, reduzindo os custos totais de fornecimento e aumentando a segurança energética.

Por outro lado, como o desenvolvimento hidroelétrico na América Latina começou no início do século XX, com particular ênfase nas décadas de 1970 e 1980, já existem mais de 70 GW de instalações hidroelétricas que atingiram sua vida útil. Da mesma forma, entre 1990 e 2000, foram instalados 28GW, que cumprirão sua vida útil nos próximos anos. Existe um amplo potencial para a reabilitação e modernização desses equipamentos (incluindo a aplicação das mais recentes tecnologias de controle e instrumentação), com necessidades de investimento de dezenas de bilhões de dólares.

Em resumo, as projeções e dados mostram que em nossa região não apenas as usinas hidroelétricas continuarão a ser construídas, mas que há uma necessidade crescente de investir na reabilitação e modernização das já existentes. Poderíamos dizer que é um panorama positivo. Então, quais são os principais aspectos que devem ser considerados para este desenvolvimento futuro? Podemos identificar pelo menos cinco:

Impactos ambientais e sociais. O desenvolvimento hidroelétrico presente e futuro depende do correto gerenciamento dos impactos ambientais e sociais desses projetos. Esse gerenciamento começa cedo, com a identificação correta dos locais para as centrais e o dimensionamento ideal dos projetos. Planejar a nível de sistemas elétricos, considerando avaliações ambientais estratégicas é essencial como primeiro passo. Além disso, a aplicação de protocolos e ferramentas que garantam a sustentabilidade dos projetos hidroelétricos é um elemento básico de seu desenvolvimento (um exemplo é o Hydropower Sustainability Assesment Protocol).

Estudos e pré-investimento. Outro aspecto de vital importância para garantir o futuro desenvolvimento hidroelétrico é a correta estimativa dos custos e cronogramas desses projetos. Há evidências de que, em muitos casos, os custos e os cronogramas de projetos hidroelétricos não são corretamente estimados na ALC (são principalmente subestimados). Como resultado, acontecem custos adicionas e os cronogramas de execução se estendem durante a execução dos projetos, o que têm um alto impacto não apenas na reputação desse tipo de tecnologia, mas também nos custos totais dos sistemas elétricos, que devem fornecer geração de backup não planejada para cobrir a demanda. Não se pode minimizar o papel de um correto pré-investimento, financiando estudos para reduzir incertezas e riscos, e ter prazos e orçamentos mais limitados à realidade, a fim de se ter uma estimativa real da viabilidade econômica (ou não-viabilidade) desses projetos.

Financiamento (quem, como e para quê). As necessidades de financiamento para as próximas décadas são entre quatro e 10 bilhões de dólares por ano (sem considerar as linhas de transmissão). Esse valor é maior se as necessidades de reabilitação forem consideradas e as possibilidades de incrementar a potência das usinas existentes (mais difíceis de estimar). Dadas estas necessidades, a participação pública e privada é essencial, tanto no estudo e desenvolvimento dos projetos, como no seu financiamento. Os projetos hidroelétricos são intensivos em capital, com vida longa e baixos custos operacionais. São necessárias fontes de financiamento de acordo com essas características, que permitem que esses investimentos de longo prazo sejam lucrativos. Por outro lado, os projetos hidroelétricos têm riscos intrínsecos (geologia, impactos ambientais e sociais, principalmente), que podem afetar seus prazos e custos de execução. Esses riscos podem ser parcialmente mitigados por meio de pré-investimentos adequados e do uso de ferramentas para sua gestão integral, e é por isso que é necessário criar mecanismos para apoiar a preparação de projetos. Adicionalmente, o desenvolvimento e uso de mecanismos financeiros (por exemplo, garantias) também podem facilitar o gerenciamento desses riscos, a fim de reduzir as taxas de financiamento desses projetos.

Mudança climática. A hidroeletricidade pode ser afetada pelos impactos das mudanças climáticas, mas ao mesmo tempo pode ajudar na adaptação e mitigação desses impactos. Então, é necessário estudar em detalhe o impacto da mudança climática nas instalações hidroelétricas existentes, a fim de identificar medidas de mitigação que possam ser implementadas oportunamente. Da mesma forma, é necessário desenvolver modelos que permitam estimar adequadamente as variações do potencial hidroelétrico futuro, a fim de informar o planejamento dos sistemas elétricos. Dada a evidência do impacto da mudança climática nos regimes de chuvas, o planejamento de projetos hidroelétricos não pode mais ser realizado apenas com base em séries hidrológicas históricas, e requer análise de cenários de mudanças do clima, a fim de gerar soluções robustas de planejamento.

Por último… O potencial é realmente o potencial? Na verdade, não sabemos, já que as estimativas do potencial hidroelétrico em alguns países são muito antigas (os 75% de potencial hidrelétrico disponível, deve ser tomada “com pinças”). Essas estimativas devem ser atualizadas levando em consideração os últimos dados hidrológicos, pluviométricos e cartográficos disponíveis, além de atualizar as restrições ambientais e sociais. As novas tecnologias de análise de imagens de satélite podem facilitar novos estudos. Estas novas estimativas devem considerar os atuais avanços tecnológicos que dariam viabilidade técnica e econômica ao potencial hidroelétrico anteriormente inexplorado. A possibilidade de armazenamento por bombeamento também deve ser analisada nos estudos de potencial.

Existem muitos outros fatores que podem ser discutidos, o assunto é empolgante, mas se você quiser saber mais sobre esses temas, o convido a ler esta nota técnica “O setor hidroelétrico na América Latina: desenvolvimento, potencial e perspectivas“.

 

*Arturo Alarcon é especialista em energia do BID no Brasil.

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