Ideação
POLÍTICAS PÚBLICAS PARA MELHOR
QUALIDADE DE VIDA.

Hospitais sem leitos?

ideia | 19 Outubro 2017

Ian W. Mac Arthur*

Quando falamos em hospitais com autoridades do setor de saúde, a primeira pergunta muitas vezes é “há quantos leitos? ” Tradicionalmente, esse indicador tem sido uma das unidades de medida mais utilizadas do planejamento de saúde e ao mesmo tempo uma das mais emblemáticas. No entanto, os hospitais seguem oferecendo leitos, o que já não é um ponto de referência tão significativo. Isto se deve a uma soma de fatores que estão gerando mudanças na organização dos sistemas de saúde e no papel dos hospitais.

Todos os países do mundo vêm experimentado transições demográficas e epidemiológicas caracterizadas pelo envelhecimento da população, gerando o aumento do número de pessoas com doenças crônicas. Isso contribui a uma demanda maior dos serviços, justamente quando se observa uma crise de financiamento. Também os próprios pacientes e as tecnologias têm transformado a maneira como funcionam os serviços de saúde, com mais acesso às informações, maiores expectativas sobre a qualidade dos serviços, e novas maneiras de interação entre os profissionais da saúde e os pacientes. Com tudo isso, a rede de saúde está aprendendo que não é só de leitos que se faz um hospital.

Adapte-se ou adapte-se, uma nova realidade

Vários hospitais aderiram a iniciativas que respondem a esta nova realidade:

Articulação dos hospitais em redes integradas de serviços diversificados

O desenvolvimento de tecnologias de informação e comunicação (TIC) permite transferir serviços para fora do hospital, por meio da recuperação telemonitorada e hospitalização a domicílio com consultas remotas. Os cuidados intermediários de longa duração para pacientes crônicos também são uma alternativa que coloca à disposição serviços de reabilitação e terapia que requerem menos recursos clínicos e tecnológicos para o cuidado de pacientes com doenças como câncer, Alzheimer e diabetes. O atendimento  adequado  a pacientes com múltiplas patologias requer uma continuidade maior dos cuidados, multidisciplinaridade, integração com os serviços sócio-sanitários e uma atenção primária fortalecida.

Especialização da oferta

O modelo tradicional do hospital geral tornou-se inviável em muitos países, inclusive no Brasil. Por isso, é cada vez mais comum encontrar hospitais com um enfoque particular nas áreas para aumentar o volume de pacientes e assim otimizar a qualidade e reduzir custos. Esse movimento, conjuntamente com a transferência de pacientes não crônicos a estabelecimentos secundários, está produzindo hospitais que concentram casos complexos e que requerem intervenções médico-cirúrgicas mais sofisticadas. Com isso, em alguns países observa-se uma redução na quantidade de leitos e com uma internação mais curta, associada ao aperfeiçoamento das tecnologias médicas.

Novas relações de colaboração e contratação

Tradicionalmente os hospitais operavam de forma autônoma; contudo, a estruturação de alguns serviços independentes mostrou-se mais eficiente por servir a múltiplos prestadores. O diagnóstico por imagem e laboratório, por exemplo, foram os primeiros a usarem este modelo, maximizando a produtividade da tecnologia e do recurso humano limitado e de alto custo. Dessa forma, diferentes prestadores estão integrando serviços clínicos através da configuração de equipes, intercâmbio ou rotação de profissionais e residentes, a adoção de protocolos em comum, a contabilização conjunta de produção, e a utilização de TICs.

Essas mudanças estão transformando o hospital convencional em apenas um elemento dentro de uma rede, um lugar onde a oferta de serviços vai além dos muros, chegando até a casa do paciente. Nesta nova remodelagem o indicador mais conhecido não deveria estar vinculado aos leitos hospitalares, e sim à atividade produtiva gerada pela rede de saúde.

Para saber mais sobre este tema, visite a página do Diálogo Regional de Políticas de Saúde, promovida pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Você considera que os hospitais em seu estado serão diferentes no futuro? Quais os outros aspectos que precisam ser considerados? Conte-nos na seção de comentários ou escreva para nós no Twitter: @BIDgente

 

*Ian W. Mac Arthur é especialista líder em proteção social da Divisão de Proteção Social e Saúde do BID no Brasil.

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