21 julio 2016

A corrupção tem gênero?

Por Julie T. Katzman, Vice-Presidente Executiva e Diretora de Operações do BID, e Vivian Roza.

O ano de 2015 foi cenário de uma série de escândalos de corrupção de alto nível em vários países da América Latina, com nomes conhecidos como a Lava Jato no Brasil e a La Línea na Guatemala. Três destes casos ocorreram em países governados por mulheres: Argentina, Brasil e Chile. Para alguns, isso os levou a perguntar: as mulheres que estão na política são mais ou menos corruptas que os homens?

Pesquisas de opinião realizadas na América Latina e nos Estados Unidos mostram que, em geral, as pessoas as consideram mais honestas. De fato, essa percepção tem levado a várias cidades da América Latina a colocar mulheres a frente de cargos policiais cruciais na luta contra a corrupção.

E existem estudos que respaldam que as mulheres são menos corruptas. Mencionam, por exemplo, a menor probabilidade de pagamento de subornos e de irregularidades administrativas em operações de compras públicas em cidades dirigidas por mulheres. Entretanto, outros estudos mais recentes revelam que o contexto importa. Se há mulheres em postos de poder em sociedades democráticas e relativamente transparentes, a presença tem um efeito positivo. Em regimes autocráticos com histórico de corrupção, no entanto, a presença de mulheres tem efeito baixíssimo ou quase nulo. Uma possível explicação é que as mulheres tendem contrariar menos as normas sociais, ou que não tenham acesso ao “clube masculino” onde se desenham os acordões.

Se a evidencia ainda não é conclusiva, o gênero é importante para entender a corrupção? Por que deveríamos exigir que as mulheres que ocupam postos de poder sejam menos corruptas? Se exigimos mais ética das mulheres que dos homens, não estamos condenando-lhes ao fracasso? Se as mulheres continuam ganhando espaços de liderança, é lógico esperar que haja mulheres boas e ruins, honestas e corruptas, conciliadoras e conflituosas, assim como ocorre com os homens. Mas somente quando os espaços forem mais femininos, poderemos constatar se a opinião oriunda das pesquisas está correta.

Até lá, observemos o cenário político latino-americano atual. Ainda que as mulheres representem a metade da população, ocupam apenas um quarto dos cargos ministeriais, dos postos legislativos e de outros cargos públicos altos. Nos partidos políticos, representam mais de 50% dos membros, mas ocupam apenas 12% dos cargos diretivos.

Por que é importante contar com mulheres em postos de poder?

Enquanto a informação sobre gênero e corrupção possa ser ambígua, os benefícios gerais de diversidade de gênero não o são. No setor privado se observam maiores taxas de rentabilidade, menores possibilidades de falência, e outros indicadores similares de desempenho positivo. No setor público, a evidência indica que a presença de mulheres em cargos eleitos melhora a alocação de recursos públicos e aumenta as probabilidades de que os interesses das mulheres e jovens sejam representados entre as prioridades legislativas.

Tanto na minha função anterior como na atual, de Vice-Presidenta Executiva e Chefe de Operação do BID, vi a escassez de dirigentes femininas nas mesas de negociações e também o efeito catalítico e criativo que as mulheres podem ter nas raras oportunidades em que alcançam uma presença numérica importante. Então como mudamos esta situação?

Para empoderar e promover a representação de mulheres em altos níveis de direção, o BID lançou a Rede PROLID, uma plataforma única na América Latina dirigida a desenvolver carreiras e impulsionar o surgimento de mulheres líderes no setor público.

Desenvolvemos esta iniciativa porque acreditamos fortemente na importância de aumentar a quantidade de mulheres qualificadas no setor público e criar um ambiente propício para o êxito. Mas isso não é suficiente. Para alcançar essas metas, é imprescindível o apoio dos homens. Homens como o primeiro ministro canadense Justin Trudeau, o primeiro ministro italiano Matteo Renzi e o primeiro ministro francês Jean-Marc Ayrault, que recentemente compuseram, pela primeira vez na história de seus países, gabinetes paritários.

Independentemente de a corrupção ter ou não gênero, estes chefes de governo compreenderam que quando tanto homens como mulheres tem voz no desenvolvimento de seus países, a sociedade prospera. Desde dar prioridade ao gasto em saúde e educação até impulsionar leis que favoreçam a família e a igualdade de gênero, uma maior presença de mulheres em postos públicos chaves produz melhores políticas públicas e sociedades mais igualitárias e inclusivas.

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