Ideação
POLÍTICAS PÚBLICAS PARA MELHOR
QUALIDADE DE VIDA.

Como vivem as mulheres no país mais igualitário do mundo

ideia | 9 Março 2015

 

islandiaFoto: Wikimedia Commons

Beatriz Portugal*

Essa ilha no topo do Atlântico Norte é considerada há cinco anos consecutivos o melhor país do mundo para as mulheres segundo o ranking anual do Fórum Econômico Mundial. No papel isso quer dizer que é o local com a menor disparidade entre homens e mulheres em relação ao acesso a educação e saúde, nível de remuneração e à atuação na vida política do país. Ou seja, as mesmas oportunidades e mesmo direitos entre homens e mulheres.

Residente na Islândia há quase seis meses, procurei ver como isso se traduz na prática. De início pensei que ser mulher aqui é praticamente igual a ser mulher no Brasil e nos outros países em que já vivi – todos países ocidentais – mas ao me aprofundar no questionamento, alguns aspectos saltaram aos olhos, a começar por um tema tido como um dos mais femininos possíveis: a maternidade.

Na Islândia, parte-se da premissa de que mãe e pai têm os mesmo direitos. Ganha-se uma licença de nove meses ao todo, três meses para a mãe, três meses para o pai e outros três que podem ser usados e divididos pela mãe e pelo pai do modo que o casal quiser.

Essa regra além de dar valor igual a mães e pais desde o início traz uma vantagem a mais, a de que as mulheres deixam de ser um fator de risco por causa da maternidade. Caso uma empresa considere o risco de contratar uma mulher, terá de encarar o fato de que o homem apresenta o mesmo risco, ainda mais quando um pai que não usufrui de sua licença paternidade é tido como irresponsável e acaba mal visto pela sociedade.

Afinal, a responsabilidade de criar filhos é dividida igualmente, assim como o trabalho doméstico. Homens cuidam dos filhos, limpam, cozinham, passam roupa e nada disso é motivo para elogios no dia-a-dia – é simplesmente o normal.

Também não há qualquer estigma ou preconceito em relação às mães solteiras ou às que tem filhos de pais diferentes. Talvez por isso, as islandesas escolhem virar mães cedo, em média aos 25 anos. Parte disso também é o sistema de apoio fornecido. Além da licença paternidade, a maior do mundo, o serviço de creches e escolas tem preços acessíveis por ser subsidiado pelo governo.

Com isso, as mulheres sabem que podem se educar e ter uma carreira bem sucedida, mesmo com filhos. E os números confirmam: 88% das mulheres em idade economicamente ativa trabalham, a mais alta taxa de participação feminina no mercado de trabalho do mundo. Ao mesmo tempo, a taxa de fertilidade na Islândia é uma das mais altas da Europa, com uma média de dois filhos por mulher.

O fato de que aqui a maternidade não se opõe ao trabalho ou ao estudo muda toda a estrutura de vida das mulheres. Elas não se sentem obrigadas a encaixar suas vidas no esquema escola-trabalho-casamento-filhos, o que abre inúmeras portas.

O único aspecto que ainda deixa a desejar é faz com que as islandesas digam que o país ainda não atingiu “a verdadeira igualdade” é a disparidade salarial. Em média, os homens ainda ganham 10% a mais do que as mulheres.

Mesmo assim, para quem tem os olhos acostumados a outras realidades, o poder do movimento feminista da Islândia é espantoso. Metade do gabinete é ocupado por mulheres, além de 43% das cadeiras no Parlamento. O país teve a primeira mulher chefe de Estado eleita democraticamente no mundo (ela era também uma mãe solteira), e conta também com o feito de ter tido a primeira mulher primeira-ministra assumidamente gay do mundo.

São portas que se abrem quando o país tenta alcançar a igualdade ao valorizar as diferenças. A Islândia é um lugar onde as mulheres não precisam ser como os homens para conseguirem estar em pé de igualdade. Aqui, elas podem ser mulheres do jeito que desejarem ser.

* Beatriz Portugal, jornalista freelance, vive na Islândia. 

 

9 comentários

  • Lila :

    Perfeito. Terra da musa Bjork!

  • Juna :

    Aqui seguimos no sonho e na luta.

  • LAURACY GONÇALVES LOYO FERRONI :

    AQUI NO BRASIL TEM MUITA DESIGUALDADE SOCIAL, ECONOMICA,SALARIAL, SEXUAL,EDUCACIONAL,PROFISSIONAL E ALGUMAS MAIS QUE NO MOMENTO NÃO ME LEMBRO. CONCLUSÃO, TEMOS NÓS MULHERES QUE SE DESDOBRAR O MÁXIMO PARA DAR CONTA DE TUDO QUE ACONTECE EM NOSSAS VIDAS.E SE NÃO CONSEGUIMOS SOMOS CONSIDERADAS UMA PESSOA QUE NÃO PENSOU E AGIU CORRETAMENTE E NEM SEMPRE É ASSIM.

  • Larissa :

    Realmente é uma evolução. Infelizmente, o que ainda vemos no Brasil são mulheres ocupando o posto de trabalho dos homens, mas não conquistando seu espaço como mulheres. Esta é a grande diferença!

  • Janaína Coutinho :

    Esse mundo aí é o que sonho para o mundo.

  • Gabe :

    Beatriz,
    Legal o post. Se você está há 6 meses aí posso lhe atestar que o tempo vai melhorar..que inverno que vocês tiveram! (estão tendo)!

    Quanto ao tópico. Vivi aí muitos anos (inclusive sou cidadão) e posso atestar a tudo que disse. Aí é muito bom, mas não perfeito. Há dois pesos e duas medidas em termos de direitos, especialmente no que diz respeito a “útlendingar” e esse governo atual só está piorando a situação. Pro bem das mulheres, e dessa linda nação, vale a pena também divulgar o absurdo da seguinte situação. Muitos islândeses estão indignados com isso. Dado que turismo é tão importante agora, qualquer tipo de atenção internacional é muito bem-vinda.

    http://grapevine.is/news/2015/04/10/domestic-violence-survivor-given-30-days-to-leave-iceland/

    með bestum kveðjur
    Gabe

  • […] seu artigo “Como vivem as mulheres no país mais igualitário do mundo”, ela descreve com riqueza que essa realidade não está apenas em números, mas em atitudes e […]

  • renato costa :

    Islândia: área de 103.000km² população: 320.000
    Porto alegre: área 500km² população: 1.400.000
    grande Porto alegre área 29.735km² população: 4.858.000
    São Paulo:área de 248.222km² população: 44.000.000
    Brasil: área de 8.515.767km² população: 190.756.000

    Só alguns dados..que não podem ser contestados..

  • […] seu artigo “Como vivem as mulheres no país mais igualitário do mundo”, ela descreve com riqueza que essa realidade não está apenas em números, mas em atitudes e […]

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