POLÍTICAS PÚBLICAS PARA MELHOR
QUALIDADE DE VIDA.

Como é possível gerenciar a noite? Uma conversa com o prefeito de Amsterdã

ideia | 11 Abril 2016

cidades noturnas - amsterdã

Andreina Seijas*

Durante vários anos pesquisei a importância da noite para a América Latina e o Caribe, de acordo com o ponto de vista das políticas públicas. Há pouco viajei a Amsterdã, capital da Holanda que é uma referência mundial em matéria de políticas noturnas e inovação. Uma das inovações desta cidade é a criação do Nachtburgemeester (o Prefeito Noturno), uma figura escolhida a cada dois anos para servir como o intermediário entre as regulamentações diurnas e noturnas.

Durante minha visita, tive a oportunidade de conhecer a Mirik Milan, o Prefeito Noturno de Amsterdã (2014-2016). Como Prefeito Noturno, Milan lidera uma organização sem fins lucrativos que trabalha em parceria com o governo local de Amsterdã para apoiar e promover a cultura noturna da cidade para aqueles que vivem e visitam a capital holandesa.

prefeito noturno de amsterda-2

Mirik Milan, Prefeito Noturno de Amsterdã

Um “rebelde a caráter”

Milan é um empreendedor de 34 anos com grande experiência na cena noturna de Amsterdã. Trabalhou como promotor de festas durante seus 20 anos, e agora lidera uma empresa de eventos na cidade. “Se quer mudar algo, tem que falar o mesmo idioma,” explicou.

Com mais de 10 milhões de visitantes ao ano, Amsterdã é uma cidade que requer grande flexibilidade ao gerenciar as horas de funcionamento de suas diversas atividades noturnas. Em 2013, a cidade introduziu a figura das “licenças 24 horas” para permitir que estabelecimentos como boates e restaurantes funcionassem ao longo da noite. De acordo com Milan, estas licenças possuem uma série de vantagens para a cidade:

Ajudam a melhorar a qualidade de vida daqueles que vivem no centro da cidade. A maioria das boates e clubes em Amsterdã fecha entre 4h e 6h da manhã, preenchendo as ruas com milhares de pessoas que causam muito barulho e incomodam aqueles que vivem na redondeza. Ter a possibilidade de permanecer abertos até tarde facilita uma mobilidade noturna mais organizada. “Se os clubes podem decidir por si mesmos se desejam permanecer abertos, então haverá menos pressão dos vizinhos dos quais se encontram na localidade,” disse Milan.

Promovem maior eficiência no uso de espaços públicos e privados. Para Milan, “Os estabelecimentos noturnos devem ser multidisciplinares, ao atender públicos tanto de dia como de noite.” Por exemplo, o mesmo estabelecimento pode funcionar como um centro comunitário durante o dia e como um bar de música durante a noite. Dessa maneira, a cidade pode fazer o uso mais eficiente destes espaços e as pessoas serão mais compreensivas em relação a suas atividades noturnas.

Ajudam a reduzir comportamentos tais como o “binge drinking” (ou “atração” do álcool), um problema comum entre os jovens da Europa e Estados Unidos. O “binge drinking” é a prática que consiste em consumir grandes quantidades de álcool de uma vez. Ao expandir os horários de funcionamento dos estabelecimentos noturnos, Amsterdã ajuda a reduzir parte da pressão que sentem os consumidores em terminar beber uma dose ou uma garrafa de bebida alcoólica antes de fechar o bar. Além disso, em 2014 a Holanda aumentou a idade mínima legal para beber dos 16 para os 18 anos.

Permitem a cidade competir com outros destinos noturnos relevantes, tais como Londres e Berlim. A primeira se encontra negociando a ampliação de seu sistema de metrô subterrâneo 24 horas; e a segunda, é conhecida por ter algumas das licenças noturnas mais flexíveis da Europa.

Milan também trabalha em um projeto para fazer de Rembrandtplein—um dos bairros noturnos mais ativos da cidade— que tem uma área mais limpa, segura e amigável durante a noite. Desde o verão de 2015, todas as noites das sextas e sábados um grupo de “anfitriões” ajuda os visitantes e monitoram a área para controlar situações tais como brigas e barulhos. A experiência contempla também estender as horas de operação dos negócios que funcionam na área, os quais devem cumprir uma série de condições como promover entretenimento especial a funcionários para que sejam capazes de reconhecer e prevenir situações de violência.

prefeito noturno de amsterda-3

Noite em Amsterdã – Foto/ Andreina Seijas

Rumo a uma rede internacional de gestão noturna

De acordo com Milan, um dos objetivos do Prefeito Noturno de Amsterdã é espalhar a ideia sobre as vantagens de uma economia noturna intensa. “Todas as cidades são diferentes, mas todas precisam lidar com os pros [mais emprego, revitalização de zonas urbanas] e os contras [barulho, lixo, violência] que acompanham a vida noturna,” disse.

O Nachtburgemeeste de Amsterdã participa com frequência de conferências e seminários ao redor do mundo. Recentemente, esteve em uma reunião com o Prefeito de Londres, Boris Johnson, para discutir os desafios que atualmente afetam o cenário noturno na capital inglesa, onde aproximadamente 40% dos estabelecimentos musicais têm fechado nos últimos sete aos.

Milan também se encontra organizando o primeiro Fórum de Prefeitos Noturnos que acontecerá em abril deste ano em Amsterdã. O evento vai buscar construir uma rede internacional de especialistas e profissionais nos temas noturnos, e criar um modelo a ser seguido por outras cidades que buscam melhorar sua gestão noturna a partir da designação de um prefeito noturno. “A ideia é ter alguém que possa estimular o diálogo entre os diferentes atores que participam do cenário noturno. Apenas por meio do diálogo é que poderemos mudar as regras do jogo,” disse.

O que podem aprender as cidades da América Latina com a experiência de Amsterdã?

Post publicado originalmente no blog do BID, Ciudades Sustenibles

 

*Andreina Seijas entrou no BID em novembro de 2013 para trabalhar em comunicações e produtos de conhecimento para a Iniciativa de Cidades Emergentes e Sustentáveis (ICES). Anteriormente, trabalhou como Associado em Políticas Públicas na Americas Society/ Council of the Americas em Nova York, onde realizou pesquisas sobre uma grande variedade de temas sociais e políticos na América Latina, organizou eventos de políticas públicas e trabalhou como assistente editorial para a revista Americas Quarterly. Andreina tem experiência no desenho e implementação de estratégias de comunicação para o setor público, privado e sem fins lucrativos. Também tem experiência em projetos de desenvolvimento humano na Venezuela, Haiti e nos Estados Unidos. Andreina possui licenciatura em Comunicação Social pela Universidade Católica Andrés Bello (UCAB), mestrado em Política Social e Desenvolvimento pela London School of Economics (LSE) e um mestrado em Administração Pública Universidade de (NYU).

Siga Andreina no Twitter @AndreinaSeijas

Deixar um comentário