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Cinco razões porque os centros históricos serão a base da nova agenda urbana

ideia | 13 Outubro 2015

centros históricos bid

Luis Sáenz García*

São uma das chaves do futuro de nossas cidades. Como algo tão antigo, como os centros históricos da América Latina, pode ser parte de um plano de futuro para as cidades do século XXI? Acredita-se que a resposta é simplesmente para preservar uma atração turística.

Durante os últimos 40 anos houve uma evolução positiva no debate internacional e na atuação local, frente à proteção e discussão sobre o patrimônio cultural, que deixou para trás a abordagem focada exclusivamente no patrimônio construído. A gestão pública atual avança nos esforços para abordar os desafios dos centros históricos de maneira integral, buscando estratégias de revitalização e conservação para dinamizar os centros históricos das cidades.

Hoje, quando o mundo prepara uma nova agenda global para o desenvolvimento e a urbanização com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e Habitação III, as cidades e o patrimônio cultural são reconhecidos como uma prioridade para o desenvolvimento sustentável (objetivo 11, meta 4). Este reconhecimento ratifica a relevância e oportunidade que representam os centros históricos como instrumentos para impulsionar um desenvolvimento urbano sustentável e sensível da cultura, que contribua para combater problemas de urbanização contemporânea como a desigualdade, marginalização, deterioração ambiental e desumanização do espaço urbano.

Centro Histórico de Salvador (Pelourinho) Na foto: Turistas aproveitam o Verão 2011 no Pelourinho Foto: Rafael Martins/AGECOM

Os centros históricos, como o de Salvador na Bahia/Brasil, tem a capacidade de se converter em laboratórios de inovação urbana
Foto: Rafael Martins/AGECOM via Flickr

Estas são boas notícias para a América Latina. Na região existem 33 centros históricos declarados como patrimônio da humanidade, onde cidades como Quito e Cidade do México avançaram nas últimas décadas com exitosas gestões desde o setor público, privado e da comunidade internacional, para o debate e revitalização de seus centros históricos. Adicionalmente a estas grandes cidades, a legislação de vários países declarados como patrimônio nacional a diferentes centros históricos de médias e pequenas cidades, abriram novas oportunidades de transformação. Este é o caso de países como a Colômbia que teve dois centros históricos reconhecidos pela UNESCO (Cartagena e Mompóx) e tem declarado 44 centros históricos como patrimônio nacional.

Os centros históricos são a manifestação viva da história urbana e cultural latino-americana, e ainda que muitas cidades enfrentem profundos processos de deterioração e abandono, seu potencial segue intacto. Os centros históricos não apenas abrigam grande parte do patrimônio tangível e intangível da nossa cultura, como também sua revitalização tem o potencial de deflagrar sinergias entre múltiplas dimensões – cultural, social, econômica e urbana – para converter-se em uma centralidade vibrante na cidade. Aqui compartilho cinco razões de porque os centros históricos de nossas cidades serão fundamentais para o avanço de cidades mais igualitárias e prósperas à luz do rápido processo de urbanização que enfrentam:

  • Concentram um entorno construído único onde convivem as infraestruturas do passado e do presente, obrigando explorar padrões especiais de desenvolvimento urbano que solucionem problemas imediatos de mobilidade, espaço público e serviços urbanos para o centro da cidade, integrando o patrimônio.
  • Atraem um alto fluxo de capital humano em forma de turistas, moradores, estudantes, trabalhadores, entre outros, que deve ser capitalizado com estratégias de desenvolvimento econômico local e que fortaleçam as cadeias de valor do centro, fortalecendo zonas econômicas e atraindo novos investidores.
  • Eles são a manifestação viva da cultura de cada cidade, onde se reúne boa parte da identidade tangível e intangível de uma cidade, permitindo o fomento de atividades e indústrias relacionadas à cultura e a criatividade, revitalizando o sentido do lugar e da identidade cultural.
  • Oferecem uma oportunidade para a harmonia social, através de estratégias que reconhecem a diversidade dos moradores do centro, aumentam sua capacidade habitacional e oferecem soluções adequadas a diferentes grupos socioeconômicos.
  • Apresentam dinâmicas democráticas especiais abrindo oportunidades para que funcionem como pequenos laboratórios de inovação cívica, onde o setor público, privado e os cidadãos podem explorar alternativas inovadoras de colaboração para a construção de soluções urbanas.

Reconhecer este potencial abre uma oportunidade para empreender e colocar em marcha estratégias e programas que abordem os desafios dos centros históricos de maneira integral em diferentes cidades da nossa região. Além do patrimônio urbano, é preciso identificar as novas oportunidades para revitalizar as características socioeconômicas e potencializar a cultura em sinergia com a sustentabilidade ambiental por meio de novos modelos de governança, o que permite uma mudança real na urbanização.

Estes debates e as novas oportunidades que os centros históricos enfrentam na América Latina serão o foco do Seminário Internacional ¡Viva el Centro!, que acontecerá na Cidade do México, entre 18 e 19 de novembro e contará com a participação de expositores internacionais que vão compartilhar experiências e lições de diferentes países ao redor do mundo.

Ver com zelo o nosso passado pode liberar e desencadear transformações que deem forma a um futuro melhor em nossas cidades!

Agradeço em especial Jesus Navarrete por seus conselhos e considerações.

*Post publicado originalmente em espanhol no blog do BID, Urbe & Orbe

* O autor é consultor do BID no programa Vivienda y Desarrollo Urbano da Divisão de Gestão Fiscal e Municipal (FMM). Antes trabalhou como coordenador de projetos de consultoria em planejamento e gestão urbana para o setor público em Geografia Urbana S.A.S e para American Planning Association (APA).

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