POLÍTICAS PÚBLICAS PARA MELHOR
QUALIDADE DE VIDA.

Por que é tão difícil deixar de ser pobre?

ideia | 7 Maio 2015

Favela_Jaqueline_(Vila_Sônia)_02Foto: Wikimedia Commons

Deus ajuda quem cedo madruga, diz o ditado popular. Estude e você será alguém na vida, nos aconselham nossos pais. Não há dúvidas de que sem trabalho e estudo não há desenvolvimento, mas livrar-se da pobreza exige muito mais do que esforços individuais. Estudioso do tema, Jonathan Rothwell, pesquisador associado ao Brookings Institute e autor de textos sobre a influência de bairros pobres no acesso à educação de qualidade, entre outros,  explica porque é tão difícil deixar de ser pobre e sugere como os governos deveriam agir para aumentar a mobilidade social.

Seria possível resumir porque é tão difícil deixar a pobreza?

J.R.: Se pensarmos na pobreza apenas como baixo rendimento, então escapar dela seria tão simples quanto conseguir um emprego que pague decentemente ou receber alguma ajuda social do governo. Mas a questão é que a pobreza não é apenas um problema de baixo rendimento. Ela (pobreza) costuma derivar da falta de oportunidades durante a infância, algumas relacionadas à vida familiar e outras, aos bens públicos. Um ambiente familiar sólido é muito importante para uma vida de sucesso, mas pode não existir, por diferentes razões, para muitas famílias pobres. Além disso, para escapar da pobreza, as crianças precisam receber uma boa educação que dê a elas as habilidades necessárias para serem cidadãos produtivos. Idealmente, elas conquistariam essas habilidades tanto em casa quanto na escola, mas para muitas crianças pobres esses dois cenários não existem. Por essa razão, muitas crianças pobres são criadas sem os blocos fundamentais para uma vida de sucesso.

Que tipo de políticas públicas os governos deveriam colocar em prática para reduzir a desigualdade de renda? Sendo um estudioso de como bairros pobres afetam a renda futura das pessoas, o senhor acredita que os governos deveriam priorizar essas áreas?

J.R.: Para permitir que as pessoas deixem a pobreza, os governos devem fazer várias coisas simultaneamente. Primeiramente, deve haver uma economia forte para que as pessoas tenham um incentivo para investir em educação e ter empregos depois que concluírem os seus estudos. O empreendedorismo e o comércio devem ser promovidos e não dificultados por excesso de regulação. Os governos também precisam investir em bens públicos como transporte, escolas e pesquisa e desenvolvimento. Em segundo lugar, os governos devem buscar soluções para desigualdades históricas, especialmente aquelas relacionadas à opressão racial e étnica. Isto significa oferecer acesso igualitário à educação de qualidade e garantir políticas que visem melhorar a solidez e a saúde das famílias como planos de saúde e programas educacionais para os mais pobres como planejamento familiar e atenção aos recém-nascidos, bem como creches de qualidade para filhos de trabalhadores de baixa renda. Para alcançar esses objetivos, os governos devem confrontar a segregação econômica e racial que impede os pobres de obter bens públicos.

Como a  gentrificação de bairros afeta as pessoas que tradicionalmente viviam nessas áreas que foram transformados e que, muitas vezes, acabam tornando-se caras para os antigos moradores?

J.R.: Dependendo da situação, a gentrificação tanto pode ajudar como prejudicar as pessoas. Se elas são proprietárias dos imóveis, elas ficam mais ricas. Mesmo que aluguem, a gentrificação pode coincidir com o crescimento das oportunidades econômicas que permitiriam a essas pessoas pagar um aluguel mais alto. No entanto, os preços dos aluguéis costumam subir mais rápido que a renda, o que pode afastar famílias de baixa renda, ou mesmo moderada, de bairros  originalmente pobres que passaram por grande transformação imobiliária. Os governos, então, precisam aumentar os subsídios ao aluguel para os muito pobres, mas também permitir que os mercados imobiliários trabalhem tão livremente quanto possível, de modo que a demanda por imóveis seja atendida e os preços não subam de maneira fora do controle. A segregação foi criada em grande parte por um histórico de políticas públicas ruins. Direitos de propriedade sólidos, incluindo o de construir no próprio terreno ou vendê-lo para uma construtora, são importantes ferramentas contra a segregação que os governos costumam ignorar.

Existe alguma evidência de que bairros pobres prejudiquem mesmo aquelas pessoas que têm condições de ter “sucesso”?

J.R.: Sim. Há fortes evidências nos EUA de que crescer em um bairro pobre limita o acesso à educação de qualidade e a outros recursos, resultando em baixa instrução, índices de casamento e renda quando a pessoa atinge a idade adulta. Os resultados negativos para aqueles que cresceram em bairros pobres não podem ser atribuídos à genética ou a falhas pessoais. Evidências experimentais e quasi-experimentais mostram que as qualidades negativas dos bairros pobres provocam rendimentos mais baixos quando as pessoas crescem.

Qual a sua posição sobre projetos que oferecem condições especiais para que pessoas de baixa renda morem em edifícios/bairros melhores?

J.R.: Novas evidências dos economistas de Harvard Raj Chetty e Nathaniel Hendren mostram que subsídios governamentais ao aluguel que permitem que moradores de baixa renda mudem-se para bairros de pouca pobreza podem ser muito efetivos na redução da pobreza futura das crianças que são criadas em bairros de melhor renda.

1 comentário

  • Clara Chaves :

    Parabéns pelo post Patrícia Fortunato!

    É interessante constatar que para muito além da meritocracia, o que contribui,de forma preponderante, para que as pessoas saiam da situação de pobreza é a implementação de políticas públicas que visem a equidade e a igualdade de direitos.

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